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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

QUANDO EU ME CHAMAR SAUDADE
Beth Carvalho
QUANDO EU ME CHAMAR SAUDADE
(Nelson Cavaquinho & Guilherme de Brito)
 
Sei que amanhã
Quando eu morrer
Os meus amigos vão dizer
Que eu tinha um bom coração
Alguns até hão de chorar
E querer me homenagear
Fazendo de ouro um violão
Mas depois que o tempo passar
Sei que ninguém vai se lembrar
Que eu fui embora
Por isso é que eu penso assim
Se alguém quiser fazer por mim
Que faça agora.
Me dê as flores em vida
O carinho, a mão amiga,
Para aliviar meus ais.
Depois que eu me chamar saudade
Não preciso de vaidade
Quero preces e nada mais

sábado, 16 de fevereiro de 2013

"Morre lentamente quem não troca de idéias,
não troca de discurso, evita as próprias contradições.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guro e seu parceiro diário.
Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, não ouve música, quem não acha graça de si mesmo.
Já que não podemos evitar um final repentino, que ao menos evitemos a morte em suaves prestações."

Martha Medeiros

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

NA MADRUGADA

na madrugada eu me perco nessas horas sem fim , onde a solidao é maior onde sei que muitos estao se divertindo ou estao de olhos fechados num sonho tranquilo, e eu aqui arrasada por nao saber o que fazer com a solidao , sera que apenas eu estou sozinha ou tem mais alguem desejando compania ..muitos devem estar dançando ou chorando ou se despedindo de alguem , nesse exato momento alguem esta de partida e nao voltara mais , onde alguns estao se acabando numa dose final ou começando num copo americano , ou apenas sentados na varanda vendo a noite se transformar num lindo amanhecer ...na madrugada vejo que me entrego pra tristeza onde a dor me vence onde meu cansaço me deixa derrotada ..mas é na madrugada que nao consigo fugir da realidade que meus maigos me abandonaram e que os estranhos me dao a mao nao porque e importam e sim porque também estao sozinhos ..muitos estao solitarios e querem atençao uma palavra amiga ou que pelo menos alguem esteja do outro lado , mas hoje nao estou deprimida e nem me sentindo isolada so um sentimento de desdem , .... dois passos a direita 5 pra esquerda e 10 pra tras ..é assim que e sinto dando voltas e voltando de onde eu estava e pareci que nunca tem um começo sempre um fim ..mas namadrugada me enchergo melhor me encaixo melhor escuto o silencio , escuto minha alma chorando e meu espirito revoltado com minha calma ...mas hoje essa madrugada esta tranquila , esta suave sem dramas sem brigas e sem choros ate sinto vontade de sorrir de brincar de ser eu mesma ..

                                                                                                              shirley maria da silva


quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Escolhas, minhas escolhas

Fagner Mera
Quando eu era criança,
As escolhas eram tão simples,
Jogava bola, ou peão,
Esconde-Esconde ou pega-pega.

Aí o tempo foi passando,
e as escolhas mudaram,
Não existe mais simplicidade nas ações,
e cada opção se tornou complexa.

Os caminhos escolhidos não tem mais volta,
As oportunidades desaparecem,
E a indecisão as vezes paira em meu ser...

Quero encontrar meu sossego,
Conhecer o gosto da tranquilidade,
Queria sabe o que é certo,
Para não correr o risco de errar...

Espero apenas que minhas escolhas,
Se não me salvarem, também não me destruam...

ESQUIZOFRENIA
Márcio Antñio Zucarelli
 
Turvo-me aos meus sentimentos
E me questiono surpreendentemente
Quem eu sou?
Por que estou aqui?
Por que você me olha assim
Como se eu não fosse nada?
Gesticulam os meus dedos,
Sinto-me tremulo, não é o frio!
Estático por algum momento,
Olhos me vigiam de longe
Eu posso sentir de perto,
Bocas que zombam de mim,
Mas a vida não acabou
Este pobre coitado
Que anda atrás de mim,
Para onde vai?
Que fazes por aqui?
A vida te trapaceou,
Olha pra mim, não estás sozinho!
Surpreendentemente sigo teu caminho,
Não vai me dizer que ela te deixou,
Por este mesmo motivo
O álcool é meu amigo,
Mas podemos superar juntos
A tristeza da falta de alguém,
Descermos e subirmos escadas
Passear ao parque
Jogar conversas fora
Não importa se estão nos vendo
Sempre caçoam de nós,
Por causa dela, engraçado!
Tenho a impressão de que grito
Mas ninguém ouve, ou finge não ouvir...
Esta noite quero conversar com meu travesseiro...
E debaixo do meu cobertor, amigo...
Sozinho. Desde que ela me deixou,
Acontece-me estas coisas,
Nem me conheço mais,
E às vezes me vejo parecido com você.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

PARA SEMPRE
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
 
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A ESTRELA
MANUEL BANDEIRA
 
Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.
Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.
Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alto luzia?
E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.
MENOS AMIM
FERREIRA GULLAR
 
Conheço a aurora com seu desatino
Conheço o amanhecer com o seu tesouro
Conheço as andorinhas sem destino
Conheço rios sem desaguadouros
Conheço o medo do princípio ao fim
Conheço tudo, conheço tudo
Menos a mim.

Conheço o ódio e seus argumentos
Conheço o mar e suas ventanias
Conheço a esperança e seus tormentos
Conheço o inferno e suas alegrias
Conheço a perda do princípio ao fim
Conheço tudo, conheço tudo
Menos a mim.

Mas depois que chegaste de algum céu
Com teu corpo de sonho e margarida
Pra afinal revelar-me quem sou eu
Posso afirmar enfim
Que não conheço nada desta vida
Que não conheço nada, nada, nada
Nem mesmo a mim.

sábado, 3 de novembro de 2012

UM HOMEM COM UMA DOR
PAULO LEMINSKI
Um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
andasse mais adiante

carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisa que os valha

ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer, vai ser minha última obra.
ANTES QUE A ANGUSTIA DESÇA É PRECISO PARTIR...
VINICIUS DE MORAES
Antes que a angústia desça é preciso partir
Não importa para onde, não importa para longe de quem
Ó como o mesmo céu sufoca e a mesma ventura mata!

Abandonar o corpo gasto de sol e a alma gasta de sono
Raspar os velhos sapatos na branca soleira da casa do tédio
E surgir como um animal morno de silencioso passo.

Nada a conhecer... Sim, são verdes as montanhas
E quanta vaga expiação deixam os livros no pensamento
E acima de tudo existe Deus serenamente inacessível.

Mas viver, ah, viver é doloroso, é incompreensível
Não se sabe quando!... não se sabe nunca... e quando sabe-se
É para receber o golpe mortal da tragédia no mais fundo.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

PENSO E PASSO
ALICE RUIZ
 
Quando penso
que uma palavra
pode mudar tudo
não fico mudo
MUDO
Quando penso
que um passo
descobre um mundo
não paro
PASSO
e assim que
passo e mudo
um novo mundo nasce
na palavra que penso
O BOI
CARLOS DRUMOND DE ANDRADE
 
Ó solidão do boi no campo,
ó solidão do homem na rua!
Entre carros, trens, telefones,
Entre gritos, o ermo profundo.
 
Ó solidão do boi no campo,
Ó milhões sofrendo sem praga!
Se há noite ou sol, é indiferente,
A escuridão rompe com o dia.
 
Ó solidão do boi no campo,
Homens torcendo-se calados!
A cidade é inexplicável
E as casas não têm sentido algum.
 
Ó solidão do boi no campo!
O navio-fantasma passa
Em silêncio na rua cheia.
Se uma tempestade de amor caísse!
As mãos unidas, a vida salva...
Mas o tempo é firme. O boi é só.
No campo imenso a torre de petróleo.

domingo, 28 de outubro de 2012

Aos que vierem depois de nós
Bertolt Brecht
(Tradução de Manuel Bandeira)

Realmente, vivemos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.
 
Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?
 
É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.

Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: "Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!"
 
Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.
 
Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.

Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
 
As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
 
Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.
 
Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.
 
E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO
Carlos Drumond de Andrade
 
Os ombros suportam o mundo

Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.


Envelhecer
Arnaldo Antunes
 

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Motivo
Cecília Meireles
 
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.